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Trajetórias expositivas: Grupo de los Trece no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo

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> autores

Luiza Mader Paladino

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Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo. É integrante do GEACC – Grupo de Arte Conceitual e Conceitualismos no Museu, ligado ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Tem artigos publicados pelas revistas Arte ConTexto e Valise (Brasil), além da colaboração de textos e verbetes em publicações organizadas pela Profa. Dra. Cristina Freire.

Recibido: 22 de noviembre de 2017

Aceptado: 27 de noviembre de 2017





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> como citar este artículo

Luiza Mader Paladino; «Trajetórias expositivas: Grupo de los Trece no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo». En Caiana. Revista de Historia del Arte y Cultura Visual del Centro Argentino de Investigadores de Arte (CAIA). N° 11 | Año 2017 en línea desde el 4 julio 2012.

> resumen

Neste artigo examinarei a presença dos artistas ligados ao CAYC (Centro de Arte y Comunicaciónno MAC USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo). O ponto de partida será o intercâmbio promovido por ambas instituições e seus respectivos diretores, Jorge Glusberg e Walter Zanini, no decorrer da década de 1970. Essa presença argentina no Museu foi marcada pelo Grupo de los Trece, e seus membros participaram de algumas mostras emblemáticas do MAC USP, como a Prospectiva 74 (1974), Poéticas Visuais (1977), Papel e Lápis (1976) e Década de 70 (1976). Focarei nessa última exposição, organizada por Jorge Glusberg, que representa a consolidação desse intenso diálogo entre MAC USP e CAYC. Para tanto, deverá ser levado em conta as estratégias de internacionalização fomentadas pelo Centro argentino, através de seu método de exibição e da categoria “arte de sistemas” criada por Glusberg para abarcar uma série práticas inscritas em um conceitualismo ajustado às condições de produção latino-americanas.

Palabras clave: CAYC - Centro de Arte y Comunicación, MAC USP - Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Jorge Glusberg, Walter Zanini, arte conceitual

> abstract

In this article I will examine the presence of artists linked to the Center for Art and Communication (CAYC) at Museum of Contemporary Art of the University of São Paulo (MAC USP). The starting point will be the exchange promoted by both institutions and their respective directors, Jorge Glusberg and Walter Zanini, throughout the 1970s. This Argentine presence in the Museum was marked by the Grupo de los Trece, whose members participated in some emblematic exhibition at MAC USP, that resulted from experimental practices, such as Prospective 74 (1974), Visual Poetics (1977), Paper and Pencil (1976) and Decade of 70 (1976). I will focus on this last exhibition, organized by Jorge Glusberg, which represents the consolidation of that intense dialogue between MAC USP and CAYC. To this end, the strategies of internationalization promoted by the Argentine Center, through its method of exhibition and the category of «art of systems», created by Glusberg to cover a series of practices inscribed in a conceptuality adjusted to the conditions of Latin American production.

Key Words: CAYC - Centro de Arte y Comunicación, MAC USP - Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Jorge Glusberg, Walter Zanini, conceptual art

Trajetórias expositivas: Grupo de los Trece no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo

Introdução

Neste artigo, examinarei a presença dos artistas do Centro de Arte y Comunicación (CAYC), grupo estabelecido em Buenos Aires, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP). O ponto de partida será o intercâmbio promovido por ambas instituições e seus respectivos diretores, Jorge Glusberg (1932-2012) e Walter Zanini (1925-2013), no decorrer da década de 1970. Essa presença argentina no Museu foi marcada pelo Grupo de los Trece,[1] e seus membros participaram de algumas mostras emblemáticas do MAC USP, resultantes de práticas experimentais e dos novos media,[2] como a Prospectiva 74 (1974), Poéticas Visuais (1977), Papel e Lápis (1976) e Década de 70 (1976). Este trabalho focará nessa última exposição, organizada por Jorge Glusberg, e que representa a consolidação desse intenso diálogo entre MAC USP e CAYC. Para tanto, deverá ser levado em conta as estratégias de internacionalização fomentadas pelo Centro argentino, através de seu método de exibição (papel heliográfico) e da categoria “arte de sistemas” criada por Glusberg para abarcar uma série de métodos inscritos em um conceitualismo ajustado às condições de produção latino-americanas. A análise dessas trocas, tendo como destaque a vinda da mostra Década de 70 para o MAC USP, permitirá construir um escopo inicial que busca compreender essa rica trama de câmbios artísticos e institucionais, possibilitando um outro ângulo sobre esse período no qual sedimentou-se uma nova visualidade.

O início do intercâmbio

O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e o CAYC foram duas entidades fundamentais para a ampliação das práticas experimentais, ao longo da década de 1970.

O MAC USP, sob a direção de Walter Zanini, dos anos de 1963 a 1978, tornou-se um território dialético em que coexistia o incentivo à organização do acervo de arte moderna com uma série de mostras retrospectivas, em paralelo ao impulso à produção de arte contemporânea. Com uma ampla programação e poucos recursos financeiros, Zanini desenvolveu no Museu uma plataforma interdisciplinar e multimídia,[3] dando fôlego às práticas conceituais, às novas tecnologias e potencializando uma rede alternativa de trocas artísticas, por meio da arte postal.

Distinto do caráter público e universitário do MAC USP, o CAYC, instituição privada, criada e dirigida por Jorge Glusberg, em 1969, deu início a um novo panorama artístico em Buenos Aires. Em sua fase de formação, o Centro estimulou o vínculo entre arte e tecnologia, contudo, no decorrer dos anos seguintes se consolidou a partir de uma dupla operação: se associou às poéticas conceituais, com foco no contexto latino-americano, simultâneo ao projeto de internacionalização da arte local.

Walter Zanini e Jorge Glusberg estabeleceram um intenso diálogo através da tentativa de partilhar exposições; negociar a vinda de artistas e intelectuais internacionais, intermediar propostas e convites para a participação de seminários e congressos. E, sobretudo, compartilhar o desafio de dirigir duas instituições em “temps difficiles”, conforme escreveu Zanini a Glusberg, em uma das trocas de correspondência.[4]

De acordo com a documentação[5] levantada nos arquivos do MAC USP, esse intercâmbio teve início em 1972. Em uma das primeiras cartas, Glusberg conta sobre as exposições de Joseph Kosuth e Dennis Oppenheim, realizadas anteriormente no CAYC, e oferece a Zanini algumas mostras organizadas pelo Centro, como Poesía ConcretaArte de Sistemas en la Argentina, Grabados Checoeslovacos e Fotografía Tridimensional Polaca.[6] Em resposta, o diretor do MAC USP escreve sobre as exposições propostas: “Creio que poderá ser um ponto de partida para um intercâmbio entre as entidades […] Esperando vê-lo sensível ao problema cultural latino-americano, subscrevo, aguardando breve resposta”.[7]

Em correspondências posteriores,[8] Glusberg envia um catálogo de Hacia un perfil del arte latino-americano e negocia a vinda da mostra para o Museu. Vale destacar a importância dessa exposição, que além de inaugurar o Grupo de los Trece, trouxe à tona a política e a ideologia como modus operandi artístico.

O uso do papel heliográfico tornou-se um suporte privilegiado de exibição e circulação de obras. Sobre as heliografias, Glusberg escreveu: “este sistema econômico e facilmente reprodutível não é produto do azar, mas próprio de nossa impossibilidade de competir com meios tecnológicos e possibilidades econômicas que ainda não dispomos”.[9] Sobre esse novo canal de comunicação, os artistas conscientes de suas realidades nacionais, se manifestavam sob o prisma da arte como forma ideológica, em compasso com a sentença: “não existe uma arte dos países latino-americanos, mas uma problemática própria, consequente com sua situação revolucionária”.[10]

Sobre os desdobramentos da negociação da vinda de Hacia un perfil… ao MAC USP, Glusberg escreve em uma das cartas:

Estimado Zanini, aprovechando la simpática visita a Buenos Aires de Aracy Amaral, hemos conversado y entiendo los problemas que usted pueda tener con “determinadas obras de la muestra Perfil latino-americano” […] Nos gustaría mucho conocer su opinión, evitando obras que lo podrían comprometer, de hacer una muestra en su Museo. Yo creo, y además Aracy me lo ha confirmado, que el único lugar en que podríamos exhibir en este momento una muestra importante de argentinos es en su museo.[11]

Em correspondência seguinte, Zanini retorna: “As coisas não são nada fáceis aqui, você sabe. Não temos sido museu tumulus em todo caso […] Sobre a mostra Perfil, desde que ela não fique esvaziada, mas dentro daquilo que você intui, pode enviar”.[12]

Essa passagem indica alguns dos entraves institucionais criados durante a negociação de exposições, especialmente as que buscavam articular arte e política. A conjuntura do período, marcada pela forte repressão e censura de diversas instâncias da vida cotidiana, buscava desativar toda e qualquer experiência que fosse radical no plano artístico.

Uma das obras heliográficas de Hacia un perfil…, evidencia o ambiente de confrontação proposto pelos artistas. Projeto de monumento ao prisioneiro político desaparecido, de Luis Pazos (1940), e uma de suas cinco proposições para uma arte latino-americana, publicada no catálogo da exposição: “fazer da arte a conscientização da realidade”, indicam o caminho de radicalização política na arte. Pazos, nesse ato de previsão trágica, assinalou o destino de milhares de civis durante as ditaduras na América Latina.

Provavelmente, por seu teor político mais explícito, Hacia un perfil del arte latino-americano não foi exposta no MAC USP, mas inaugurou uma série de acordos que pretendiam trazer uma mostra do CAYC ao Museu. Essas transações podem ser avaliadas num eixo mais amplo, ao representarem uma das linhas de frente do projeto de internacionalização promovido por Glusberg, através da itinerância de exposições. Sabe-se que por meio das “gacetillas amarelas”, ferramenta de publicidade das atividades do CAYC, o Centro exportou diversas mostras para os Estados Unidos e Europa.[13] Entretanto, Glusberg buscou incluir o Brasil em sua zona de internacionalização, como apontam as correspondências trocadas com Zanini.

Presença do CAYC no MAC USP

Em 1974, Horacio Zabala (1943), Juan Carlos Romero (1931-2017) e Luis Pazos, integrantes do Grupo de los Trece, participaram da mostra internacional Prospectiva 74 no MAC USP.[14] Organizada pelo artista espanhol Julio Plaza e Walter Zanini, a exposição fez parte de uma ampla rede internacional de comunicação impulsionada pela arte postal. Essa poética, “surgida na urgência de estruturas de substituição em nível internacional”,[15] conforme escrevera Zanini, tornou-se uma atividade fundamental que ligou artistas de diversas parte do mundo, a partir da década de 1970.

Essa urgência surge de novas demandas artísticas que buscavam ir além da unicidade da obra de arte, por meio da conexão de grupos de artistas, cooperativas e outros focos alternativos que operavam distante da lógica do mercado. Inclusive, parte dessas produções não foi idealizada para circular em museus e galerias, ou seja, em espaços institucionalizados. Nesse sentido, é válido apontar o papel do MAC USP como local de resistência e estímulo desse tipo de prática, um receptáculo de propostas pensadas coletivamente com o intuito de descentralizar os canais de distribuição e circulação. O Museu, por meio de seu programa amplo de exposições, conseguia captar e conectar práticas não oficiais em espaços institucionais.

Fotos, poemas, mapas, publicações, xerox, desenhos, filmes 16mm e super 8 foram enviadas por correio ao Museu, reunindo cerca de cento cinquenta artistas de diversos países. O amplo número de participantes foi possível por meio ideia dos organizadores de que cada artista convidasse uma outra pessoa para ser incluída na exposição.

Prospectiva 74 também teve uma programação especial para a projeção de filmes e diapositivos, na qual contou com o envio de um filme produzido por Jorge Glusberg e sua Cooperativa Ediciones del Tercer Mundo.[16] As obras enviadas pelos argentinos representam desdobramentos de séries produzidas anteriormente, e que foram expostas no CAYC. Esse conjunto de propostas sintetiza o discurso crítico do Centro, concebido a partir da categoria “arte de sistemas”, ou seja, “a arte como ideia, a arte política, a arte ecológica, a arte de proposições ou a arte cibernética”.[17] Vale deter-se sobre esse conceito, basal para compreender as práticas desenvolvidas pelo CAYC, e que de um modo geral circunscreveram uma problemática própria da arte produzida nos países da América Latina nesse período.

Segundo María José Herrera, nos primeiros anos da década de 1970, o CAYC organizou exposições, reuniões de intelectuais e formou um coletivo artístico próprio: o Grupo de los Trece, que operou a partir da categoria “arte de sistemas”. O Grupo buscava pautar os trabalhos artísticos “sobre o espaço e no espaço social”.[18] A categoria se aliou às tendências conceituais da época, sobre a qual os artistas investigaram a natureza do objeto da arte, retirando a ênfase do objeto artístico em favor do processo ou das ideias. A busca pela natureza do objeto, a partir da “afirmação de que a arte consiste em nada mais além da ideia do artista sobre ela e de que a arte prescinde de significados além dela mesma”,[19] constituiu a base primordial da arte conceitual de matriz europeia e norte-americana.

As vertentes conceituais na América Latina operaram sob outra política de visualidade em sintonia com a situação periférica e a dinâmica social adequada às condições reais da região. Uma versão regional, intitulada por alguns autores como “conceitualismo ideológico”,[20] imprimiu uma nova lógica às propostas tautológicas e auto referenciais exportadas pelos centros hegemônicos. Pode-se falar numa inversão conceitual que ativou o papel do artista nas estruturas políticas e ideológicas. No catálogo da exposição Arte de Sistemas II, Glusberg escreveu:

O que importa é a abertura que propõe este conceitualismo ideológico dos artistas argentinos como uma nova forma que emerge como consequência de uma problemática regional que utiliza uma metodologia comum a diferentes contextos. Este é o valor deste novo avanço artístico argentino.[21]

A aproximação com as teorias marxistas sobre ideologia e política delinearam os pressupostos da “arte de sistemas” argentina e lhe garantiu uma identidade própria. O CAYC definiu o seu programa conceitual e o inseriu nas políticas de projeção internacional da instituição, cuja estratégia central pautou-se na promoção de exposições e artistas do Grupo de los Trece, que se organizavam sob a chave “arte de sistemas”. (Fig. 1)

Após quatro anos de trocas de correspondências e negociações, Glusberg foi exitoso em seu programa de internacionalização e, finalmente conseguiu organizar o envio de uma mostra ao Brasil. Década de 70 foi inaugurada nos primeiros meses de 1976 no edifício do MAC USP. A mostra de heliografias concebida por Jorge Glusberg contou com o trabalho de mais de cem artistas, entre latino-americanos, europeus e norte-americanos. A exposição era uma extensão desse programa conceitual desenvolvido pelo diretor do CAYC, cuja orientação teórica se ajustava a montagens anteriores. No catálogo da mostra, Zanini escreveu:

Predominantemente endereçada a uma atividade de visão crítica da sociedade […] Trata-se efetivamente de uma amostragem de ideias e de métodos de trabalho que especificam o comportamento participacional eximido de reverberações estéticas tradicionais. Década de 70 denota a convicção de uma linguagem desalienadora.[22]

A “amostragem de ideias e de métodos de trabalho”, a qual Zanini se referia, vincula-se aos princípios conceituais endereçados “a uma visão crítica da sociedade”. O acento político das ações propostas pelos artistas se adequavam ao suporte heliográfico, meio alternativo de circulação amplamente acessível. A precariedade assumida pelo método heliográfico buscava revelar o valor econômico e as reais condições de produção artística, distanciando-se dos circuitos comerciais de difusão da arte tradicional e seus valores de troca. (Fig. 2)

Essa escolha, de acordo com Glusberg, não pactuava com as redes de interesse da arte “oficial” e, sobretudo, não pretendia agradar ou satisfazer as demandas do “terreno mercantilista”, mas sim propor novas experiências estéticas. E um dos modos de se apartar dos setores privilegiados era democratizando o acesso à cultura, por meio dos novos canais de circulação e distribuição das obras.

Em um mundo da privatização dos objetos de interesse comunitário, a institucionalização da obra de arte a converte também em mercadoria […] Por esta razão, uma razão de economia, […] que tem presidido o emprego do papel heliográfico para a realização das obras que compõem Década del 70.[23]

O discurso da exposição procura se distanciar da noção de autonomia das artes visuais e do fenômeno da criação individual, pautando-se na dependência das condições subjetivas de produção do artista. Ao acionar a ideologia como fator constituinte de quaisquer manifestações artísticas e culturais, o artista poderia se identificar com alguma tendência, elegendo sua produção a partir de seu repertório social. E essa era a base do Grupo de los Trece dentro das exposições, além de servir de exemplo para ilustrar as práticas artísticas contemporâneas.

Todos os integrantes do Grupo de los Trece participaram da mostra no MAC USP, junto a uma centena de artistas nacionais e internacionais. Diante das múltiplas propostas observadas nas poéticas individuais de cada membro do Grupo, nota-se uma “coincidência” que os une em um conjunto coerente, próprio “de uma mesma retórica construtiva, quer dizer, pertencentes a uma problemática comum”.[24] A “coincidência” mencionada por Glusberg volta aos sistemas constituintes dessas manifestações artísticas, que são acionadas a partir das condições políticas e sociais de produção. O artista transforma-se num emissor dos códigos locais, ao mesmo tempo que é condicionado por eles. Esse ciclo gera um discurso político artístico. “Sendo um grupo formado na ambiência cosmopolita da arte conceitual, o que lhe dá unidade é algo que extrapola o campo visual ou formalista”.[25]

Em Diagrama por analogia, Víctor Grippo (1939-2002) reapresentou em forma de projeto o seu experimento científico baseado na construção de um sistema elétrico que procurava extrair energia de dezenas de batatas. Elemento essencial nas obras de Grippo, a batata, alimento genuíno da América, simbolizava um reservatório de energia, de acordo com o experimento proposto. Já Horacio Zabala, por meio da apropriação e desordenamento técnico, cria novos territórios e associações críticas que serviram de tática para as suas cartografias e projetos de prisão. Em As deformações são proporcionais às tensões, o artista produziu turbulências nas representações geográficas oficiais, sugerindo um campo cartográfico em constantes disputas políticas. Ascensão das massas, de Luis Pazos, parte dos termos arte de ação ou art-actitud, criados pelo artista para designar uma série de proposições que visavam ativar a participação do espectador, gerar um vínculo concreto entre arte e vida e elaborar trabalhos coletivos em detrimento da obra individual. Juan Carlos Romero apresentou Destruição e exaltação do corpo humano, trabalho que dava continuidade à série Violência. Anos antes, Romero fez uma intensa pesquisa sobre o termo violência, invetigando-o em diversos contextos, desde notícias de jornais a artigos científicos. (Fig. 3)

Observa-se que essas séries de propostas conceituais buscavam na arte um instrumento de ação para deflagar mudanças no sistema político e cultural, referentes à uma realidade em crescente conflito. Serviram como uma estratégia que exigia do ato artístico algo além da satisfação imediata dos sentidos e do prazer da percepção sensível, para estimular uma reflexão sobre o circuito da arte e o seu contexto sociopolítico;[26] em compasso com as ideias centrais fomentadas pelo CAYC.

Conclusão

As duas instituições analisadas são reconhecidas em seus respectivos países, contudo, pouco se conhece sobre as trocas promovidas por ambas. Este trabalho buscou, de forma breve, se debruçar sobre alguns resultados desse intercâmbio, por meio da vinda da mostra Década de 70 ao MAC USP. Procurou-se levar em consideração a metodologia expográfica (o uso de papel heliográfico) e a tática de internacionalização da arte argentina, sob a categoria “arte de sistemas”.

Como foi visto, alguns artistas ligados ao CAYC haviam passado pelo MAC em ocasiões anteriores, como na mostra Prospectiva 74. Contudo, faltava completar essa rede de trocas com a inauguração de uma exposição concebida por Glusberg no Brasil. Para finalizar, é válido apontar que Década de 70 teve sua importância no contexto brasileiro por consolidar o intercâmbio iniciado anos antes e, principalmente, por preencher uma lacuna na agenda latino-americana do CAYC.

 

 

 

Notas

[1] Grupo criado por Jorge Glusberg em 1971, e composto pelos artistas Jacques Bedel, Horacio Zabala, Juan Carlos Romero, Luis Pazos, Luis Fernando Benedit, Carlos Ginzburg, Gregorio Dujovny, Alfredo Portillos, Victor Grippo, Jorge González Mir, Vicente Marotta, Julio Teich e o próprio Glusberg.

[2] Termo utilizado por Walter Zanini no catálogo da mostra Prospectiva 74, que se refere às novas linguagens experimentais, para além das categorias tradicionais da pintura e escultura. No fim do texto, Zanini esclarece que as obras realizadas por processo multimedia chegaram ao Museu por via postal. Este será o eixo privilegiado das exposições mencionadas, inclusive a Década de 70. Walter Zanini, Prospectiva 74 [cat. exp], São Paulo, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1974.

[3] Cristina Freire, Walter Zanini: escrituras críticas, São Paulo, Annablume – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 2013, p. 28

[4] FMACUSP 0046-003. 25-09-1973

[5] Os documentos analisados no arquivo abrangem correspondências trocadas entre Zanini e Glusberg (1972 a 1978): “gacetillas amarelas”; boletins informativos de ambas instituições e fotografias de exposições do MAC USP no período demarcado por este trabalho.

[6] FMACUSP 0046-003. 16-03-1972

[7] FMACUSP 0046-003. 28-03-1972

[8] FMACUSP 0046-003. 21-11-1972

[9] Idem.

[10] Idem.

[11] FMACUSP 0046-003. 12-12-1973

[12] FMACUSP 0046-003. 04-02-1974

[13] De la figuración al arte de sistemas (Camden Arts Centre, Londres, 1971); Hacia un perfil del arte latino-americano (II Bienal de Coltejer, Medellín; Encuentros de Pamplona, Espanha, 1972); Arte y Cibernética (Universidad de Minnesota, 1973); Art Systems in Latinamerica (Internationaal Cultureel Centrum, Amberes; Palais de Beaux Arts, Bruxelas; Institute of Contemporary Art, Londres, 1974. E no Espace Cardim, Paris, em 1975). Mariana Marchesi, Teresa Riccardi, MNBA-CAYC, 1969-1983: dos alternativas institucionales en la promoción del arte argentino, em María Isabel Baldasarre, Silvia Dolinko (org.), Travesías de la Imagen. Historias de las artes visuales en la Argentina, Buenos Aires, Universidad Nacional Tres de Febrero, 2012, pp. 596-598.

[14] Integração de linguagens poéticas experimentais com investigações sociais e econômicas, conjunto de dez cartografias com interferências de Horacio Zabala; registro fotográfico da performance A cidade possuída pelos demônios, de Luis Pazos; e Situações de Violência – Poema da negação, de Juan Carlos Romero, enviadas para a Prospectiva 74, entraram para o acervo do MAC USP em 1975. É importante mencionar o fato de que Glusberg demonstrou interesse em receber essa mostra no CAYC, contudo Zanini negou o envio da exposição para Buenos Aires, pois o Museu tinha a intenção de organizar a sua itinerância pelo Brasil. FMACUSP 0046-003. 13-11-1974.

[15] Versão original do artigo “A arte postal na busca de uma nova comunicação internacional”, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 1977, em Cristina Freire, op. cit.

[16] Desde 1973, o CAYC explorou o terreno do cinema experimental, por meio da Cooperativa Ediciones del Tercer Mundo, integrada por Danilo Galasse, Pedro Roth e o próprio Glusberg. A programação incluía desde a realização de filmes e videotapes à formação de uma videoteca de artistas de diversos países latino-americanos.

[17] Mesmo título da emblemática exposição organizada por Glusberg em 1971, que reuniu centenas de artistas nacionais e estrangeiros. Arte de Sistemas I, em compasso com as tendências artísticas internacionais da arte conceitual, arte povera e land art, se referia “a processos mais que a produtos finalizados da “boa arte”, segundo o diretor do CAYC. Jorge Glusberg, Arte de Sistemas [cat. exp.], Museu de Arte Moderna, 1971.

[18] María José Herrera, Arte de Sistemas: el CAYC y el proyecto de un nuevo arte regional. 1969 – 1977 [cat. exp.], Buenos Aires, Fundación OSDE, 2013, p. 13.

[19] Mari Carmen Ramírez, “Circuito de heliografias: arte conceitual e política na América Latina”, em Revista do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais, EBA, UFRJ, a. 7, n° 8, p. 155.

[20] Em nota de rodapé, o autor espanhol Simón Marchán Fiz relaciona o termo conceitualismo ideológico à versão conceitual latino-americana, especificamente a do Grupo de los Trece do CAYC. Simón Marchán Fiz, Del arte objetual al arte de concepto (1960-1974). Epílogo sobre la sensibilidade “postmoderna”. Antología de escritos y manifestos, Madrid, Ediciones Aka, p. 269, 1986.

[21] Jorge Glusberg, Arte de Sistemas II – CAYC al aire libre. Arte e Ideologia [cat. exp], Buenos Aires, CAYC, 1972.

[22] Walter Zanini, Década de 70, op. cit.

[23] Jorge Glusberg, Década del 70 [cat. exp], Museo Universitario de Ciencias y Artes, 1977.

[24] Idem.

[25] Frederico Morais, Artes plásticas na América Latina: do transe ao transitório, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1979, p. 57.

[26]  Ligia Canongia, O legado dos anos 60 e 70, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005, p. 56.